09
Dez 11

Está muito frio, uma neblina húmida pesa sobre as nossas cabeças, entranha-se no corpo e faz-nos gelar por dentro. O ar está tão frio que custa a respirar, a humidade é tão desagradável que nos fere a pele. Magoa no fundo da alma. Cinzenta a neblina cheira a mofo. As mãos ficam de pedra, incapazes de tocar. Perde-se o tacto congelado nos dedos. As cores deixam de existir, nas brumas o mundo fica a preto e branco. A noite instala-se quando ainda devia ser dia. O sangue corre muito devagar gelado.
Não gosto de dias assim, nunca gostei de frio, remete-me para debaixo de mantas, enrolada sobre mim. Não gosto de me sentir assim. Não gosto da escuridão da invernia. Só consigo estar bem dentro de um casulo protector, quente, sem me mexer, paralisada. Sem vontade, quieta.
Direi mil vezes se for necessário que preciso do Sol escaldante e do céu azul. Necessito de ar quente e de liberdade cheia de luz. Para eu ser totalmente feliz devia ser sempre Verão, o que é impossível. Assim nunca vou conseguir atingir a felicidade.

 

publicado por anatem às 16:11

14
Nov 11
 
 
Já não escrevia assim há muito tempo, com gosto, com necessidade, com prazer. É isto que o Alentejo me dá, esta força anímica que me impele para dentro de mim e me faz explodir em palavras e sentimentos. Escrever sem limites perdida no tempo, sem horários nem agenda. Podia escrever sobre a Vila, como é branca e limpa, cheia de História. Podia dar a conhecer os meus Amigos, como são simpáticos, divertidos, como adoro o sotaque doce da conversa deles, como me fazem rir. Podia descrever a comida, sempre aromática e deliciosa, o sabor dos poejos na açorda. Podia transmitir a sensação de paz, o silêncio, a tranquilidade. Podia dizer como é bom respirar o ar puro, como a luz é límpida, como o vento quente sussurra nas árvores. Mas não vou escrever sobre nada disto agora. Vou só dizer que aqui sou profundamente livre e feliz.
publicado por anatem às 11:31

10
Nov 11

 

Tenho uma sombra que me persegue, é assim tenebrosa e persistente. Como uma nuvem escura, sempre a lembrar-me que podia ser uma pessoa melhor. Estou tão habituada a ela que há dias em que nem sequer me incomoda, mas noutros fico com uma sensação de angústia que me esmaga. Tento agarrar-me a pensamentos que me sustentam, os meus Filhos, a minha Avó, a minha Irmã, a minha Família, os meus Amigos, o Alentejo, a Ilha... Procuro cheiros, sons, palavras que me inspirem, fecho os olhos e penso em todos os momentos maravilhosos da minha vida. Sinto-os outra vez tão intensamente que fico feliz

publicado por anatem às 09:29

03
Nov 11

 

Não há como correr para espantar a raiva. Obrigamos o corpo a continuar até à exaustação, como se fosse uma expiação. Transpiramos, arfamos, passada a passada até à meta. A nossa meta, sempre mais difícil dia após dia. O coração bate violentamente, a boca seca, o vento bate-nos na cara, fresco. Os músculos ficam dormentes, relaxados. Aprendi a gostar de correr porque preciso, é uma espécie de terapia, estou sozinha e o desafio é com o meu corpo.

publicado por anatem às 12:48

26
Out 11

 

Não gosto de chuva, é incómoda, uma maçada. Gosto do cheiro da terra molhada depois de chover. A combinação de chuva com vento é fatal, só dá vontade de ficar na cama a vegetar. Todos dizem a chuva faz falta, estamos em risco de seca, o Outono já devia ter chegado há muito tempo. Tanto calor em Outubro não é normal, há muitos anos que não se sentiam temperaturas tão elevadas neste mês. As terras estão secas, o gado não tem pastagens, as barragens vazias... Nada disto me convence. A cidade com chuva transforma-se num pesadelo, o trânsito fica caótico, as pessoas irritadas, molhadas. Os transportes públicos cheiram a mofo, ninguém sabe onde colocar o guarda-chuva encharcado. A gabardine enrola-se nas pernas, o passo fica mais lento. O meu cabelo encaracola e fica selvagem. Despenteada é muito mais difícil evitar as poças de água e os beirais dos telhados lacrimejantes. Nestes dias devia ficar em casa, a bem da minha sanidade mental. Funciono muito mal sem Sol, sou como Lisboa.

 

publicado por anatem às 16:21

21
Out 11
Entrou na igreja. Quando era pequena e ia aos Mártires com a Avó, tinha medo. Agarrava-lhe sempre na mão com mais força, para se sentir protegida. Parecia tudo tão soturno. A igreja era enorme, escura, os santos espectros medonhos, as pinturas aterradoras e aquele Cristo a sangrar, fazia tanta pena. Chegava a ter de fechar os olhos, para não largar a correr cheia de terror. A Avó afagava-lhe os cabelos e ajeitava-lhe o vestido e ela aguentava porque não lhe queria dar nenhum desgosto. “Era só o que mais faltava, uma neta medricas, nem pensar, todas temos que ser fortes e seguras.” O que mais gostava era quando finalmente acabavam as rezas e saíam para o Chiado. O lanche, croissant com chocolate e um grande copo de leite. “Ai, menina, tens um bigode branco.” Riam muito, enquanto a Avó gentilmente lhe limpava a boca e as mãos cheias de chocolate. Agora entrar nos Mártires é sempre Santuário. A penumbra fresca, o cheiro forte do incenso e da cera das velas derretidas, o silêncio redentor. O chão encerado muito brilhante, que se deve pisar sem fazer nenhum som. Os santos calados e quietos, que felizmente, não podem contestar nem incomodar ninguém. As pinturas imponentes e piedosas. A arquitectura em renda de mármore da nave central, cor-de-rosa e branca, delicada. A sensação de sagrado, que mesmo não sendo crente se instala, é sempre tranquilizadora. Mas Cristo continua a fazer-lhe pena...
publicado por anatem às 16:34

20
Out 11
Estava na hora do seu chá, um ritual para a tranquilidade. A idade tinha-lhe ensinado a tirar prazer de estar consigo própria. A sensação de abandono já não a incomodava. Depois de aprender a lidar com um sentimento de mágoa, ele também se transforma em rotina. Abriu as cortinas brancas da janela. Pegou na toalha de algodão azul pavão e estendeu-a sobre na mesa. Viu que a água estava a ferver na chaleira cromada. Tirou do armário branco o bule inglês vermelho de porcelana vidrada. Ficou indecisa entre o Jasmim e o Earl Grey. Pensou em Maria Antonieta e na sua paixão pelo chá da flor de Jasmim. Imaginou-a maravilhada pela cor da flor que desabrochava dentro da água a escaldar. Escolheu o Earl Grey, preto aromatizado com óleo essencial de bergamota. Três colheres do chá no coador em forma de meia-lua, deitou a água no bule. Cinco minutos eram suficientes para abrir as folhas aromáticas, não se esqueceu da tampa. Cortou em fatia finas o pão, que colocou num cesto dentro de um paninho azul com flores vermelhas. Agarrou na lata branca com pintas azuis turquesa, abriu-a e viu o pão-de-ló amarelo e fofo, inspirou o aroma da baunilha. Gostava de fazer bolos, também a tranquilizava. Pesar e misturar os ingredientes. Bater a massa com uma colher de pau grande; sempre para o mesmo lado como a Avó lhe tinha ensinado. Barrar a forma, sentir a manteiga derreter nos dedos e depois polvilhar com farinha para o bolo não pegar. Aquecer o forno, não em demasia, ver o bolo crescer através do vidro, devagar. Sentir o cheiro, rapar da tigela o resto de massa doce. Voltou ao armário retirou a chávena Margão, a preferida. Sentou-se na cadeira de verga, a almofada com quadradinhos azuis e brancos. Voltou a levantar-se, tinha-se esquecido do frasco com geleia de laranja amarga. Lembrou-se da Catarina de Bragança sozinha em Inglaterra a beber chá e comer scones com geleia, às cinco da tarde, para se consolar. Já sentada, verteu o chá escaldante na chávena, o vapor aromático entrou-lhe quente pelas narinas. Inspirou, inspirada. Barrou uma fatia de pão com geleia, trincou e sentiu o doce estranhamente amargo da laranja. Bebeu um gole de chá quente, o calor espalhou-se pelo corpo, aconchegante. Não estava frio, o Outono ameno ainda não pedia grandes agasalhos. O aconchego era mais na alma, o chá, o doce, o privilégio do silêncio. Olhou para a sua cozinha branca e azul pontilhada de outras cores, e sorriu. Sabia que a partir daquele dia nunca mais ia ser difícil estar sozinha.
publicado por anatem às 11:57

07
Out 11

 

Bateu com a porta. Desceu o carreiro, precisava de estar sozinha. Inspirou profundamente, o cheiro tranquilizou-a. O ar entrava-lhe pelas narinas, quente e perfumado. Parou de repente, sentiu o vestido preso, soltou-o e viu o rasgão no tecido vermelho. Apanhou duas amoras, não as comeu. Continuou acariciando as folhas e as flores. Conhecia cada planta, todas as árvores e arbustos. O jardim e o pomar, o seu refúgio. Quando chegou à fonte sentou-se na pedra, estava quente. Mergulhou as mãos na água fresca, lavou as amoras e comeu-as. Doces, vermelhas da cor do vestido. Olhou para os sapatos, não resistiu, desatou os laços de seda e deixou-os cair no chão. Tirou a meias lentamente, os pés também precisavam de respirar. Virou-se e mergulhou-os na água verde. Ficou a chapinhar a sentir o prazer intenso da frescura entre os dedos. Fechou os olhos, e a liberdade percorreu-lhe todo o corpo.

publicado por anatem às 11:13

04
Out 11



sinto falta do silêncio,
do céu azul enorme,
da luz forte,
do cheiro das estevas,
da cor intensa da terra,
do espaço infinito,
do sotaque cantado e doce,
do sabor dos orégãos,
da brisa quente e suave,
do tempo que passa devagar sem pressa,
sinto falta do Verão no Alentejo

publicado por anatem às 16:46

03
Out 11

Muitas estórias ficam por contar.
Muitas músicas ficam por ouvir.
Muitas imagens ficam por ver.
Muitos cheiros ficam por cheirar.
Muitos mistérios ficam por revelar.
Muitos sabores ficam por conhecer.
Muitas texturas ficam por tactear.
Muitos caminhos ficam por explorar.
Muitos sentimentos ficam por sentir.
...
Melhor assim.

publicado por anatem às 17:18

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